Polícia

Família de lavrador morto e carbonizado em Ecoporanga cobra respostas um mês após o crime

O assassinato do lavrador Sílvio Soares Gomes, de 37 anos, completou um mês sem que a Polícia Civil detalhasse avanços na investigação, em Ecoporanga, no Norte do Espírito Santo. Sílvio saiu para ir à academia na noite do dia 29 de junho, e desapareceu. O corpo dele foi encontrado com marcas de violência e parcialmente carbonizado junto a moto que ele pilotava na manhã do dia seguinte, na região da Ponte do Maia. A Rede Notícia conversou com uma irmã e uma sobrinha da vítima, que pedem justiça.Publicidade

Simone Soares Gomes, de 42 anos, irmã de Sílvio, contou que ele cuidava da mãe dos dois na roça onde moravam, desde a morte do pai. “Sílvio era o meu irmão caçula, sempre cuidou de mim até falecer, e da minha mãe. No dia 17 de junho, minha mãe veio para São Mateus fazer uma cirurgia, inclusive ele que arcou com essa cirurgia, e ela estava aqui comigo, em São Mateus. Quando foi no dia 29 de junho, doze dias após a cirurgia da minha mãe, meu outro irmão me ligou dizendo que ele tinha desaparecido. Ele nunca saiu de casa, para ir para a academia ou qualquer outro lugar, sem voltar. A gente conversava muito”, disse.
“No dia em que fizeram isso com ele, eu conversei com ele às 6h40 da manhã. Ele me ligou. Disse que tinha matado cinco galinhas para mandar aqui para São Mateus. Numa felicidade, parecia até que era uma despedida. Disse que, se não conseguisse alguém para trazer para São Mateus, na sexta-feira, dia 3 de julho, estava certo de vir com minha cunhada e meu outro irmão ver a minha mãe”, contou.

“Conversei com ele nesse dia quatro vezes. À noite, por volta das 19h56, eu mandei um oi para ele. Ele já estava na academia. A mensagem foi enviada, mas ele não visualizou. Por volta das 21h eu mandei boa noite, mas nem chegou a mensagem. Eu acreditava que ele estava na estrada e que, quando chegasse em casa, iria me mandar mensagem. Aí eu fui descansar. Na manhã seguinte, meu irmão me ligou por volta das 6h44, perguntando se Sílvio tinha entrado em contato comigo. Quando ele falou que não tinha dormido em casa, minhas pernas bambearam. Ele nunca teve esse costume. Aí eu comecei a ligar para os amigos da gente em Ecoporanga para ajudar a ver o que tinha acontecido”, relatou.
“O Sílvio era uma pessoa que vivia para a família. Ele cuidou do meu pai. Vai fazer um ano, no dia 7 de setembro, que ele faleceu. Meu pai infartou nos braços dele. Ele vivia para a família. E agora ele estava cuidando da minha mãe. Ele nunca casou, foi o único que não saiu de casa, e achava que tinha a obrigação de cuidar”, contou.
“Em Ecoporanga, as senhoras, a maioria, eram amigas de Sílvio. Até agora eu estou sem entender por que fizeram isso com meu irmão. Ele era uma pessoa do bem, só fazia o bem. Eu estou arrasada. Tem hora que eu paro e fico pensando: o que aconteceu, por quê? Não tem explicação. Minha mãe tem 68 anos de idade. Quem fez isso tirou o filho exemplar, o filho que cuidava da mãe, o irmão maravilhoso”, disse.
“Eu ainda não consegui aceitar ficar sem uma ligação do meu irmão. Todo dia eu ligava para ele. É uma coisa que dói, dói demais saber que ele não está mais aqui. Eu liguei para o delegado e pedi, pelo amor de Deus, que não deixe o caso cair no esquecimento. Porque Ecoporanga é uma terra sem lei”, afirmou. “Eu acredito que ele foi induzido, atraído. Não foi uma pessoa sozinha, não tem condição de uma pessoa sozinha fazer aquilo com ele”, completou.
Corpo de Sílvio Soares Gomes, de 37 anos, foi achado dia 30 de junho. Crédito: Leitor Rede Notícia
Simone explicou que Sílvio era o mais novo de cinco irmãos e que ele nunca disse estar sendo ameaçado, nem demonstrava isso. “Ele recebeu uma ligação da minha tia, de Venda Nova do Imigrante, quando estava na academia, e não atendeu. Ela mandou uma mensagem perguntando como ele estava, e se estava ficando sozinho na roça, porque sabia que minha mãe estava em São Mateus. Quando ele saiu da academia, às 20h08, respondeu dizendo que não estava sozinho na roça, que o irmão e a cunhada estavam ficando lá com ele, e que no dia seguinte iriam jogar calcário na roça. Até aquele momento, ele estava tranquilo. Depois disse que estava indo embora para casa. A gente não sabe o que aconteceu depois disso”, relatou.
Ela contou ainda que o celular de Sílvio foi recolhido pela perícia debaixo do corpo. “O delegado chegou a me mostrar, estava queimado. Eu sabia que ele tinha um caderninho onde anotava as coisas dele. E a polícia estava aguardando a quebra do sigilo telefônico”, disse.
Segundo Simone, é um mistério para a família o fato de a casa onde Sílvio morava ficar distante do local onde o corpo foi encontrado. Ela disse ter tido acesso a imagens que mostram o irmão passando sozinho, de moto, em direção ao local onde foi encontrado morto.


Quem chamou ele, ele confiava, para ir até aquele lugar. Alguém mandou mensagem ou ligou para ele depois das 20h08, porque a mensagem que ele enviou é muito convicta: disse que tinha saído da academia e estava indo embora. Com certeza era alguém em quem ele confiava.

Simone Soares Gomes, 42 anos
Irmã de Sílvio, encontrado assassinado em 30 de junho de 2026

Ela relatou também que o cordão do irmão sumiu, mas acredita que isso tenha sido feito para despistar a investigação, já que o cartão da mãe e o cartão dele estavam na mochila encontrada com o corpo, e o valor da conta da mãe permanecia intacto. “Para roubar, não foi”, disse.
“Ele era muito querido. Teve uma senhora que, quando soube, passou mal e ficou uma semana internada”, contou. “No domingo antes do crime, ele passou o dia com nossos parentes, foi à casa dessa senhora, e à noite foi à igreja, na comunidade Santa Catarina. Ele terminou a noite no melhor lugar”, disse.
Simone contou que Sílvio mandou mensagem para a tia de Venda Nova do Imigrante às 20h08, e que, às 21h20, ela própria mandou mensagem de boa-noite para o irmão, mas a mensagem não chegou mais. Segundo ela, há mais de duas dezenas de câmeras que registram Sílvio passando de moto em direção ao local onde foi encontrado morto. As imagens estão em poder da polícia.
“Ele era trabalhador, fazia de tudo: fazia doce, torrava café, mexia com a roça. Tudo ele sabia fazer um pouco, ele era diferenciado”, disse. Ela contou que chovia na noite do crime, e que um vaqueiro relatou ter visto fogo naquela noite. Na manhã seguinte, encontrou a moto e o corpo queimados e acionou a polícia.


Diz que tem suspeitos, mas cadê os suspeitos, que não prendem?

Simone Soares Gomes, 42 anos
Irmã de Sílvio, encontrado assassinado em 30 de junho de 2026

A reportagem também conversou com Jaine Soares Silva, de 25 anos, sobrinha de Sílvio. “Meu tio era um trabalhador, trabalhava na roça, mexia com café, com horta, gostava de cozinhar, fazia bolos, doces. Todo mundo era apaixonado pelos doces que ele fazia. Caprichoso dentro de casa, muito família. Cuidou do meu avô, inclusive meu avô faleceu nos braços dele. Não faz nem um ano que meu avô se foi, e aconteceu essa barbaridade com meu tio”, disse.
Segundo Jaine, Sílvio morava com a avó, e outro tio também ficava bastante na casa. No dia do desaparecimento, a avó havia ido fazer uma cirurgia em São Mateus. “Ele saiu para ir para a academia como todos os dias. O pessoal da academia disse que ele chegou um pouquinho mais cedo e saiu um pouquinho mais cedo também, por volta das 19h50”, contou. Ele chegou a mandar uma mensagem dizendo que estava indo para casa, mas não chegou.
“Do local onde meu tio morava até onde ele foi encontrado é longe. As câmeras no trajeto o flagraram passando na moto dele”, disse Jaine. “Meu tio era muito reservado, era uma pessoa muito família.”
“Minha tia, de São Mateus, me avisou de manhã cedo que meu tio estava desaparecido, e eu fiquei em choque, porque ele sempre avisava minha avó para onde ia. Quando saía, geralmente era para visitar uma senhora idosa da cidade, com quem tinha muita amizade, e ficava batendo papo. Foi um baque. Minha tia explicou que ele tinha saído para a academia e não voltou. Meu outro tio só percebeu de manhã que a porta não estava trancada por dentro, e estranhou. Foi olhar no quarto e realmente ele não estava”, relatou.
“Minha tia e meu tio refizeram o caminho, passaram por uma mata, mas não acharam rastro nenhum. Foram até a delegacia, e lá já havia alguém informando que tinha uma moto queimada na região do Maia, na Cachoeira do Maia”, contou. “Um primo nosso foi até lá, depois que a polícia já estava no local, porque havia um corpo. Minha mãe me ligou chorando, dizendo que tinham encontrado meu tio morto, e muita gente começou a me ligar. Foi assim que eu soube da tragédia”, disse, emocionada.


Se tem uma palavra que define esse último mês, é terror. Porque não sabemos se foi um roubo, se foi alguém em quem ele confiava, não sabemos se estamos comendo no mesmo prato dessa pessoa. Essa pessoa não nos deu nem a oportunidade de dar um velório digno para o meu tio. Depois de quase 30 dias, nós enterramos meu tio sem velório.

Jaine Soares Silva, 25 anos
Sobrinha de Sílvio

O corpo de Sílvio foi encontrado carbonizado junto a uma motocicleta na manhã de uma terça-feira, 30 de junho, em uma área de difícil acesso conhecida como Ponte do Maia, na zona rural de Ecoporanga.
Segundo a Polícia Militar, a corporação foi acionada depois que um homem procurou a sede da 2ª Companhia da PM na cidade relatando ter encontrado uma motocicleta incendiada em uma área de vegetação, próxima a uma plantação de eucaliptos e um canavial, na zona rural. No local, as equipes constataram a presença de um corpo parcialmente carbonizado sob o veículo. A perícia da Polícia Científica foi acionada e constatou sinais de agressão no corpo. As guarnições realizaram diligências na região, mas nenhum suspeito foi localizado até aquele momento, informou a PM.
No local do crime, a perícia encontrou pedaços da placa da moto e restos das roupas que Sílvio usava na noite do desaparecimento. Peritos da Polícia Científica constataram sinais claros de violência: lesões no rosto, sangramento anterior à morte e uma barra de ferro cravada nas costas da vítima, objeto considerado estranho à motocicleta.
A Polícia Científica do Espírito Santo informou que o corpo encontrado carbonizado em Ecoporanga, em 30 de junho de 2026, foi identificado como sendo de Sílvio Soares Gomes. Segundo o órgão, após a conclusão dos procedimentos necessários, o corpo foi liberado à família em 24 de julho de 2026.
Cortejo percorreu ruas de Ecoporanga e reuniu grande público. Crime chocou cidade. Crédito: Instagram @britonoticia / Montagem Rede Notícia
A Polícia Civil informou que “o caso segue sob investigação da Delegacia de Polícia (DP) de Ecoporanga e para que a apuração seja preservada, nenhuma outra informação será repassada”.

AJUDE A POLÍCIA

A Polícia Civil acrescentou que informações podem ser compartilhadas de forma sigilosa por meio do Disque-Denúncia 181, que conta com três canais de atendimento: por telefone, basta discar 181; na internet, pelo site disquedenuncia181.es.gov.br; e pelo WhatsApp, enviando mensagem para o número (27) 99253-8181, seguindo as orientações do atendimento virtual. As informações passadas pela comunidade podem ser cruciais para o avanço das investigações.

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