Os Thunderbolts do cinema diferem daqueles dos quadrinhos, e tudo bem
A Marvel lançou na semana passada seu novo filme de super-heróis: “Thunderbolts*”, estrelado por um grupo de anti-heróis ou heróis de terceira classe que, juntos, receberão o codinome que dá título ao filme – ou não, o trailer faz piada sobre isso.
Quase todos os personagens apareceram em filmes ou séries anteriores do Universo Cinematográfico Marvel: Yelena Belova, a Viúva Negra; o Soldado Invernal, antigo parceiro do Capitão América; John Walker, breve sucessor do Capitão; a Treinadora; a Fantasma e o hilário Guardião Vermelho, vivido por David Harbour. A única novidade é o tal Bob, vivido por Lewis Pullman, filho do ator Bill Pullman.
O filme é muito levemente, mas muito levemente mesmo, inspirado no grupo de mesmo nome que passou a orbitar os quadrinhos da Marvel a partir dos anos 90. O excelente roteirista Kurt Busiek e o versátil ilustrador Mark Bagley criaram os Thunderbolts em 1997, uma equipe formada por super-heróis inéditos. Aparentemente.

Reparou no “aparentemente” do parágrafo acima? A trajetória dos Thunderbolts nos quadrinhos foi um refresco no então combalido gênero de super-heróis da época… vale relembramos aqui o que aconteceu.
Quando o primeiro número da revista dos “Thunderbolts” chegou às bancas, em abril de 1997, seis personagens desconhecidos estampavam a capa. Seus codinomes não eram mostrados ali, mas eram apresentados em uniforme bonitos e extravagantes, apresentando uma pose clássica de super-heróis. Na época, os Vingadores e o Quarteto Fantástico estavam “mortos”, tendo se sacrificado para derrotar o poderosíssimo vilão chamado Massacre. Os Estados Unidos do universo Marvel estavam carentes de protetores, e os super-heróis dos Thunderbolts deram um passo à frente e se prontificaram a preencher este vácuo.

Lembra que eu mencionei, dois parágrafos acima, o “combalido gênero de super-heróis da época”? O vilão que matou, sozinho, os Vingadores e o Quarteto eram um tal de MASSACRE, explicado na época como uma “fusão” entre Magneto e o professor Charles Xavier, fundador e líder dos X-Men; os Vingadores e o Quarteto na verdade não morreram, foram transportados a um mundo que era mais ou menos uma cópia da Terra onde recomeçaram suas vidas já adultos e heróis, mas sem memória do que haviam vivido antes; esta “Contra-Terra” onde foram parar estava na mesma órbita que a Terra, mas do outro lado do Sol. Ou seja, passaram a viver em um sistema solar com um planeta a mais. Como se tudo isso ainda não fosse o suficiente, para piorar ainda reverteriam tudo: o tal Massacre não era exatamente aquele que disseram que era – nem a Contra-Terra… E os heróis, claro, voltaram à Terra original, retomando sua vida de quando pararam.

Perto dessa incongruência toda, qualquer coisa diferente seria um refresco. Mas os Thunderbolts não eram só diferentes, eram originais. No primeiro número, somos apresentados ao Cidadão V, um espadachim patriótico que usava um uniforme roxo, além da bandeira dos EUA como capa; Mach-1, um herói de armadura à la Homem de Ferro; o gigantesco Atlas; o gênio Tecno; e as poderosas Soprano e Meteorita.
A grande reviravolta veio na última página desta edição número um – não anos depois, quando descobriram que a patacoada de fundir o professor Xavier ao Magneto era uma ideia horrorosa. Foi algo planejado: os Thunderbolts eram, na verdade, os Mestres do Terror, notório grupo de super-vilões que, pouco tempo antes, havia dado uma surra homérica nos Vingadores.
Assim, o patriótico Cidadão V era, na verdade, o nazista Barão Zemo, originalmente vilão do Capitão América; Mach-1, o Besouro; Atlas, o Poderoso; Tecno, o Armador; Soprano, a Colombina; e Meteorita, a Rocha Lunar. Nós, leitores, ficamos por mais de 30 páginas torcendo por vilões disfarçados.

Esta foi uma jogada arriscada da Marvel: lançar uma revista mensal de vilões fantasiados de heróis para cometerem ainda mais crimes. Teria fôlego para seguir adiante? Sim, teve. Graças a bons roteiros, que não trataram seus personagens como bidimensionais. Enquanto alguns permaneceram vilões (como o nazista Zemo, ou Cidadão V), outros começaram a repensar seus atos, como a Colombina/Soprano. Além disso, novas fases trouxeram novos tipos de formações, com direito até a super-heróis tradicionais na equipe – como o Gavião Arqueiro.
Ainda não vi o filme que acabou de estrear, mas dá para dizer que deve trilhar por um caminho diferente. Ainda são, de uma forma geral, ex-vilões ou aventureiros em busca de redenção – ou algo neste sentido. Mas o ponto de partida já é outro: não são arqui-rivais dos Vingadores que estão enganando a todos, mas pessoas ambíguas (em sua maioria) que lamentam seus erros e repensam sua trajetória. O asterisco no título do filme, aliás, pode indicar alguma reviravolta também curiosa – será que vamos descobrir que são skrulls disfarçados? Será que vão ganhar um outro codinome, mais empolgante… como Vingadores? O asterisco está lá como uma pista falsa para os fãs criarem teorias e ficarem falando a respeito do filme?

Os Thunderbolts do cinema diferem daqueles dos quadrinhos, e tudo bem. Se antes torcia-se o nariz para adaptações que não eram “fieis” aos originais, aparentemente tanto fãs quanto criadores aprenderam a lidar com algo híbrido – nem literal demais, nem distante demais. Contanto que seja um bom produto final, é claro.
Tomara que vire uma boa história. É isso que queremos…
Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
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