Jovem assassinado em presídio em São Domingos do Norte era suspeito de matar filha em ‘oferenda ao diabo’
O detento assassinado dentro do Centro de Detenção Provisória (CDP) de São Domingos do Norte, no Noroeste do Espírito Santo, na manhã desta sexta-feira (21), foi identificado como Mateus Cardoso Barbosa, de 24 anos. Ele estava preso desde julho de 2024, suspeito da morte da própria filha, uma bebê de três meses, em uma “oferenda ao diabo”, em Barra de São Francisco, segundo divulgou a Polícia Civil na época. O caso ganhou repercussão nacional. Publicidade
A Rede Notícia apurou que a vítima assassinada no CDP de São Domingos do Norte estava na Penitenciária de Segurança Média 2 (PSME2), localizada no Complexo Penitenciário de Viana, e foi levada para o CDP de São Domingos este ano.
A reportagem apurou, com fontes de alto escalão, que a vítima foi amarrada, amordaçada e enforcada com um lençol. Em seguida, teve o pescoço cortado por um objeto semelhante a uma lâmina de barbear. Perto do corpo, foi deixada a seguinte frase escrita: “Morri porque matei minha filha, vacilei”.
Os suspeitos de executarem Mateus são dois colegas de cela dele, segundo a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), que administra o sistema prisional capixaba. “O fato ocorreu no interior de uma cela, após um desentendimento envolvendo a vítima e outros dois detentos. Os dois envolvidos assumiram a autoria do crime e foram conduzidos à Polícia Civil para serem ouvidos”, informou a secretaria.
Os suspeitos não tiveram os nomes divulgados, apenas as iniciais: A.C.D., preso desde 10 de junho de 2025, suspeito do crime de homicídio qualificado tentado por motivo fútil; e L.C., preso desde 19 de março deste ano, suspeito do crime de furto.
Sobre a autuação da dupla pelo assassinato no presídio, a última atualização da Polícia Civil indicava que a ocorrência ainda seguia em andamento. A Polícia Penal, responsável pela segurança dos presídios, disse que não vai se manifestar.
A reportagem voltou a questionar a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus) sobre o que motivou a transferência do detento para o presídio onde ele foi assassinado, se haverá apuração de erro dos agentes responsáveis pela proteção dos presos, como os detentos tiveram acesso à lâmina usada no crime e se houve varredura nas celas após o ocorrido. Até a última atualização deste texto, não havia resposta.
A MORTE DA BEBÊ, FILHA DO PRESO ASSASSINADO:
No dia 22 de julho de 2024, a morte de uma bebê chamou a atenção da polícia em Barra de São Francisco, no Noroeste do Espírito Santo. Na época, segundo a Polícia Militar, uma equipe foi acionada para atender a uma suposta ocorrência de infanticídio. No local, os policiais encontraram uma equipe do Samu e o pai da criança, na época com 21 anos, que estava sentado nos degraus da escada de acesso à residência. A mãe da criança, uma adolescente com 17 anos na ocasião, estava atrás de um portão trancado com cadeado e chorava muito. O corpo da menina estava em uma calçada, enrolado em um lençol. A PM foi informada por um médico do Samu que a criança estava morta há cerca de uma hora. O local foi isolado e a perícia foi acionada.
A adolescente, mãe da bebê, contou aos policiais que, na noite do domingo, 21 de julho de 2024, ao chegar da igreja, teve uma discussão com o companheiro e decidiu não dormir com ele. Ela dormiu com a criança no chão do quarto e, por volta da meia-noite, devido ao frio, colocou a criança na cama ao lado do companheiro, onde também se deitou. Por volta das 6h30 de segunda-feira (22 de julho de 2024), a adolescente disse que acordou e viu que a criança estava com a cabeça arroxeada e sangue escorrendo do nariz. Ela afirmou que chamou o companheiro para socorrer a criança e ele gritou por ajuda da vizinha, proprietária do imóvel onde viviam.
O pai da bebê afirmou aos PMs que, após a discussão, ficou monitorando a companheira e a bebê. Ele disse que chamou a adolescente para deitar na cama por volta da meia-noite porque a criança estava chorando e fazia frio. Na versão dele, às 6h, acordou e viu a adolescente deitada sobre a filha, usando o celular. Ele retirou a companheira de cima da bebê e correu para pedir socorro.
Já a vizinha do casal, proprietária do imóvel, disse aos policiais militares que, ao chegar ao local, percebeu que a criança não parecia estar respirando e a colocou na calçada ao notar que o rosto da bebê estava arroxeado e com secreção no nariz. Ela afirmou que a adolescente cuidava bem da filha, mas que “tinha problemas emocionais e depressivos, inclusive durante a gestação”.
A Polícia Civil informou que Mateus e a adolescente de 17 anos foram conduzidos à Delegacia Regional de Barra de São Francisco. O homem foi autuado em flagrante por homicídio e encaminhado ao sistema prisional. A adolescente foi autuada por ato infracional análogo ao crime de homicídio e encaminhada ao Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciase).
Em agosto daquele ano, a Polícia Civil concluiu o inquérito sobre a morte do bebê. “Uma testemunha nos relatou que a mãe ligou para ela momentos antes dizendo que iria sacrificar a criança. Um tempo depois, ela telefonou novamente informando que havia concretizado o crime”, disse, na época, o delegado Daniel Azevedo, que atuava na Delegacia Regional de Barra de São Francisco.
O pai da criança foi indiciado por homicídio triplamente qualificado cometido por motivo torpe, asfixia e contra menor de 14 anos. A mãe, menor de idade, foi indiciada por ato infracional análogo aos mesmos crimes. “O casal já havia sido detido na data do crime, mas, no desenrolar das investigações, ficou demonstrado que os pais da criança a asfixiaram com o objetivo de praticar um ritual de magia, em que sacrificaram o bebê como oferenda ao diabo”, acrescentou o delegado na ocasião.