Professora e diretora são chamadas de “macaca” e “escurinha” em ataques racistas de pais em escola de Boa Esperança
Imagem aérea de Boa Esperança, no ES. Crédito: Obtida pela Rede Notícia
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Uma professora e uma diretora de uma escola infantil de Boa Esperança, no Noroeste do Espírito Santo, foram vítimas de xingamentos racistas no exercício da profissão ao menos três vezes durante o mês de abril, sendo o caso mais recente registrado na quinta feira (23). Os suspeitos, que não tiveram os nomes e nem as idades divulgados, são os pais de uma aluna da unidade que agora, segundo a Secretaria Municipal de Educação da cidade, estão na mira da polícia e da Justiça. O nome e o bairro onde fica a escola não serão divulgados para preservar as vítimas.Publicidade
Em nota, a secretaria informou que a diretora e a professora titular da turma foram alvos de xingamentos racistas em ao menos três ocasiões distintas, todas registradas em atas oficiais pela equipe escolar ao longo do mês de abril de 2026. Diante da gravidade dos fatos, o caso foi levado à Secretaria Municipal de Educação, que desde então acompanha as profissionais e as orienta quanto às medidas legais cabíveis.
Segundo o município, o primeiro caso foi registrado no dia 14 de abril, quando o pai de uma aluna da turma do Maternal II foi convocado à unidade escolar para tratar do extravio de um objeto pessoal da filha, uma garrafinha que havia sido colocada por engano na mochila de outra criança e já havia sido devolvida. Durante o atendimento conduzido pela diretora, foram apresentados ao responsável áudios gravados e enviados ao telefone institucional da escola, nos quais tanto ela quanto a professora da turma eram chamadas de escurinha, termo utilizado de forma pejorativa em referência à cor da pele das profissionais.
A secretaria informou que no dia 22 de abril a situação escalou. A professora havia solicitado uma reunião com os pais para tratar de assunto relacionado à aluna. Ao chegarem à escola, o casal recusou se a aguardar o horário disponível e passou a exigir atendimento imediato enquanto a professora ainda cumpria hora aula. Ainda na saída da sala, diante de outros alunos e funcionários, foram proferidos xingamentos racistas, com a professora sendo chamada de macaca e outros termos de cunho racial.
Ainda de acordo com a Secretaria de Educação, a situação se agravou no portão da escola, onde a diretora tentou mediar o conflito sem sucesso. Os responsáveis continuaram com os insultos, fizeram novas referências à cor da pele das profissionais de forma pejorativa e chegaram a proferir ameaças. A diretora alertou que as expressões utilizadas configuravam crime, inclusive por ofensa a funcionários públicos, mas os responsáveis riram da situação, informou a Secretaria de Educação da cidade.
Conforme a Secretaria de Educação de Boa Esperança, no dia 23 de abril, o pai retornou à unidade escolar para novo atendimento. Em conversa com a diretora, negou ter xingado a professora, mas admitiu que, caso ficasse nervoso, poderia chamá la de nomes, incluindo o de macaca. A direção informou que há testemunhas do ocorrido e que a professora se sentiu profundamente ofendida. Ao final da reunião, foi comunicada a decisão de remanejar a aluna para outra turma em razão do histórico de conflitos. Ao tomar conhecimento do conteúdo da ata lavrada, o responsável recusou se a assiná la, alegando querer levá la a um advogado. A direção esclareceu que as atas são documentos oficiais da instituição.
A secretaria concluiu que diante da reiteração dos episódios, a diretora e a professora levaram o caso à Secretaria Municipal de Educação. O órgão passou a acompanhar as profissionais oferecendo suporte institucional e orientando as quanto às providências legais, que podem incluir o registro de boletim de ocorrência por injúria racial, crime previsto na legislação brasileira. A secretaria reafirma o compromisso com a proteção dos servidores municipais e com a garantia de um ambiente escolar seguro, respeitoso e livre de qualquer forma de discriminação.
Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o secretário de Educação da cidade, Eudes Alexandre Monteverde, chamou o caso de “intolerável” e afirmou que deu “os devidos encaminhamentos” ao caso. Ele ressaltou que o governo não vai aceitar ‘qualquer tipo de discriminação, desrespeito e desacato aos servidores públicos’ do município.
Em nota, a Polícia Civil informou que “caso tenha sido feito o registro, o fato será investigado pela Polícia Civil. Denúncias podem ser realizadas através do Disque-Denúncia 181, garantindo o anonimato”.
A reportagem demandou informações e posicionamento do Ministério Público do Espírito Santo, mas não havia resposta até a última atualização deste texto.
A reportagem apurou que racismo é um dos crimes inafiançáveis, que são aqueles em que não é possível pagar fiança para responder ao processo em liberdade. A Constituição Federal de 1988 e a Lei de Crimes Hediondos (Lei 8.072/90) estabelecem essa categoria para delitos de maior gravidade, que causam mais dano à sociedade
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