Polícia

Tia e primo falam sobre tragédia que matou aluno de Direito em São Mateus: ‘Sonhava ser policial’

O estudante de Direito Mateus Rocha da Cruz, de 22 anos e o motorista Jairo Coutinho dos Santos, de 42 anos,investigado por acidente que matou Mateus. Crédito: Montagem Rede Notícia

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Momentos antes de morrer atingido por um carro no Sábado de Aleluia (4), o estudante de Direito Mateus Rocha da Cruz, de 22 anos, estava na casa de sua tia, Tamires Carmo da Cruz, no bairro Santo Antônio, em São Mateus. Ele estava acompanhado de outros cinco amigos, incluindo o filho de Tamires. O grupo saiu em seis motocicletas com destino a Boa Esperança para visitar amigos, cada um em seu veículo, quando um carro teria invadido a contramão na rodovia ES 315, na altura do bairro Litorâneo.Publicidade

O veículo atingiu duas motos; três condutores conseguiram desviar, saindo da pista em direção ao matagal, e um jovem que estava mais atrás não foi atingido. Mateus morreu no local do acidente. O colega da outra moto atingida ficou ferido e, nesta sexta-feira (10), precisou amputar uma perna. Ele segue internado na UTI do Hospital Estadual Roberto Silvares. A polícia afirma que o motorista do carro, Jairo Coutinho dos Santos, de 42 anos, fugiu do local e, segundo sobreviventes, apresentava sinais de embriaguez.

Tamires Carmo da Cruz relembrou os últimos momentos do sobrinho com vida antes do acidente. “O meu sobrinho chegou aqui em casa minutos antes do ocorrido. Eles chegaram brincando, né? Tão jovens, conversando, falando que eles iam lá em Boa Esperança na casa dos parentes. A gente tem parentes em Boa Esperança e amigos, né? Eles ficaram aqui na frente de casa e o Mateus, eu fiquei lá na frente conversando entre eles, logo em seguida eu entrei e eles continuaram lá”, disse.

A tia explicou que o grupo estava apenas começando a viagem quando a tragédia aconteceu na saída da cidade. “Eles estavam indo para Boa Esperança. Eles não estavam nem no meio do caminho, foi no início do percurso [quando a colisão ocorreu], logo quando começou o percurso. Para te falar a verdade, eu acho que não dá nem sete quilômetros da BR até onde foi o acidente”, explicou Tamires, detalhando a curta distância percorrida pelos jovens.

Ela descreveu o desespero ao receber a notícia logo após a partida dos motociclistas. “Eles saíram, deram a bênção e foi coisa de minutos. Porque até chegar ao local do acidente dá em média 10, 15 minutos. Aí o Luan e o Brian chegaram aqui em casa desesperados. E eu entrei em desespero também, né? Perguntei o que aconteceu e eles disseram: ‘Tia, o Gabriel e o Mateus sofreram um acidente’. Eu fiquei tão atordoada que chamei eles para o carro e saí sem eles, de tão desnorteada”, falou.

Tamires foi a primeira a chegar ao hospital, acreditando que o sobrinho estaria entre os socorridos. “Liguei para a minha cunhada, que é a mãe do Mateus, e falei para ela ir ao hospital. Eu cheguei e logo em seguida chegaram os meninos e meu esposo. Chegava uma ambulância e não era ele, chegava outra e não era. Aquela aflição, aquela agonia. Perguntei ao Luan o que houve e ele disse: ‘Um carro bateu de frente com o Mateus, tia’. A gente não sabia que ele tinha falecido”, relatou.

No hospital, Tamires teve um encontro inesperado com o suspeito de causar o acidente. “O cara que bateu no meu sobrinho chegou para mim lá no hospital, e até então eu não sabia que era ele, me pedindo um telefone para ligar para a mãe dele. O que fugiu do local estava no hospital e de lá ele fugiu. Você via que ele estava bêbado, ele estava com estilhaços, com pequenos cortes. Ele fugiu e não chegou a ser atendido no hospital”, disse.

A tia relatou que o homem apresentava falas confusas antes de desaparecer novamente. “Ele estava pedindo para um e outro um telefone para fazer uma ligação. Falava coisas desconexas, dizia: ‘Bati o carro, o carro pegou fogo’. Só que até então nós não sabíamos desses detalhes. Ele estava bem nervoso e dizia que o carro pegou fogo e o cara morreu. Eu entrei em desespero e fui para cima dele perguntando se era ele, mas ele negou dizendo ‘eu não, eu não’”, contou.

A angústia aumentou quando a segunda ambulância chegou sem o estudante de Direito. “Chegou a ambulância com o Gabriel, mas o Mateus não chegou. Chamei meu esposo para ir atrás do homem, mas ele já tinha se evadido do local. Foi onde começou o nosso pesadelo. Perguntei às meninas do Samu pelo Mateus, elas se olharam e não responderam nada. Depois disseram que ele vinha em outra ambulância, mas eu estranhei, pois se ele era o mais grave, deveria ter chegado primeiro”, disse.

Ao chegar ao local da colisão, a família encontrou o cenário da tragédia. “Saí correndo, chamei meu esposo e fomos para o local. A gente chegou lá e, para falar a verdade, eu não consigo acreditar porque é muito difícil. Só quem conheceu o Mateus sabia quem ele era. O Mateus estava se tornando um grande homem, mesmo pela pouca idade que tinha, ele já era um grande homem”, desabafou a tia, emocionada ao falar do caráter do jovem.
A tia falou que Mateus sonha ser policial e estava estudando para passar em concursos.


Ele era muito esforçado. Há três anos ele estava na luta, estudando para concurso e fazendo faculdade de Direito porque o sonho dele era ser policial. Inclusive, ele passou em um concurso em São Paulo e dizia: ‘Tia, esse ano eu passo no concurso’. Eu respondia que acreditava nele. Ele morava comigo e tinha poucos meses que arrumou o cantinho dele em Guriri.

Tamires Carmo da Cruz
Tia de Mateus, morto em colisão no Sábado de Aleluia (4 de abril)

Para a família, a morte do jovem não pode ser tratada apenas como um acidente de trânsito.


Isso não foi uma fatalidade, isso foi um crime. O que mais dói na gente é que ele fugiu do local e não deu nenhum socorro. O depoimento dele foi extremamente mentiroso. Foi o meu filho que tirou ele das ferragens. Ele falou [à polícia] que saiu sozinho e que ficou com medo de ser linchado, mas como seria linchado se os meninos estavam desesperados?

Tamires Carmo da Cruz
Tia de Mateus, morto em colisão no Sábado de Aleluia (4 de abril)

O filho de Tamires, que ajudou no resgate do motorista, ficou profundamente abalado com a situação. “Meu filho ficou totalmente desnorteado porque se sentiu culpado por ter tirado ele das ferragens [e depois o motorista fugir]. O que ele fez foi muito cruel, ele precisa pagar e a gente quer justiça. É um crime que não pode ficar impune. A partir do momento que você assume uma direção alcoolizado, você está com uma arma na mão; ou você vai matar ou vai morrer”, afirmou.

A família já enfrentava o luto por outra perda recente antes desta nova tragédia. “A gente acabou de perder o irmão dele. Fez quatro meses que o João Vítor se foi. A gente não saiu de um luto e já estamos entrando em outro. O Mateus é o mais velho, o primeiro sobrinho, o primeiro neto e o primogênito das duas famílias. Eram três filhos e agora resta apenas uma menina de 10 anos”, lamentou Tamires sobre a perda dos dois sobrinhos em curto intervalo.

A tia de Mateus desabafou sobre aa dificuldade em lidar com a dor e a indignação pela atitude do motorista.


É só Deus que vai nos dar força. Como saber lidar com essa dor terrível de perder dois filhos? Foi muito cruel. Ele foge do flagrante e, se não tinha nada a temer, por que fugiu? Por que fugiu do hospital? Por que deixou um jovem agoniando no asfalto? Ele saiu ileso, deixou um menino morto e outro agoniando com outros jovens desesperados

Tamires Carmo da Cruz
Tia de Mateus, morto em colisão no Sábado de Aleluia (4 de abril)

Testemunhas relataram aos familiares do jovem morto que a direção do veículo era perigosa antes mesmo da colisão fatal. “Teve gente que disse que ele vinha em zigue-zague na pista e estava só com o farol ligado. A tragédia não foi maior porque Deus colocou a mão. Ele quase acertou o meu filho primeiro, porque o meu filho era o primeiro motociclista do grupo que estava na frente”, relatou a tia sobre os momentos que antecederam a batida.

Em entrevista à Rede Notícia , Guilherme da Cruz Oliveira, de 19 anos, que liderava o comboio de motos, descreveu como conseguiu escapar do impacto.


Eu era o primeiro da fila. Estávamos em seis pessoas em seis motos no sentido São Mateus a Boa Esperança. Eu só vi um farol vindo em nossa direção em zigue-zague, invadindo a contramão. Desviei dele e fui para o mato, saindo da pista. Quando olhei para trás, já não vi o farol das motos dos meninos

Guilherme da Cruz Oliveira
Primo de Mateus e testemunha sobrevivente do acidente no Sábado de Aleluia (4 de abril)

Ao retornar para a pista, Guilherme encontrou os amigos feridos e prestou os primeiros socorros. “Voltei e encontrei o Gabriel na pista com a perna muito machucada. Vi os destroços da moto dele e o capacete do Mateus. Desci o barranco e vi a moto pegando fogo e um cara preso às ferragens dentro do carro. Tentei forçar para tirar ele, não estava indo, então puxei o banco para trás e consegui tirar o motorista do carro”, relatou.

Foi após retirar o motorista que Guilherme conseguiu localizar o corpo de Mateus. “Entrei no meio do mato para procurar o Mateus e, um pouco mais à frente, consegui localizar ele. Ele já estava sem vida, não estava respondendo mais. Várias pessoas foram parando e falavam que o motorista já saiu do Dilô Barbosa em alta velocidade, pulando quebra-molas e fazendo zigue-zague”, concluiu Guilherme.
RELEMBRE O CASO:

A Polícia Militar informou que, quando os policiais chegaram ao local da colisão, encontraram Mateus morto, enquanto o outro homem que estava com ele na moto foi socorrido para o Hospital Estadual Dr. Roberto Arnizaut Silvares, em São Mateus.  “O condutor do carro Gol G4 vermelho fugiu”, informou a PM. Com o impacto da batida, a moto da vítima pegou fogo, e o carro do suspeito ficou destruído [assista abaixo].

Uma investigação jornalística tocada pela Rede Notícia aponta que o suspeito Jairo Coutinho dos Santos esteve, no sábado (4 de maio) do acidente, prestando serviço de pintura na comunidade quilombola de Dilô Barbosa, localizada às margens da rodovia ES 315, na zona rural de São Mateus. Testemunhas ouvidas reservadamente pela reportagem indicam que Jairo teria chegado ao local dirigindo o veículo envolvido na colisão, que, segundo informações da Polícia Militar, apresentava irregularidades.

De acordo com a apuração, relatos obtidos pela reportagem dão conta de que o homem teria consumido bebida alcoólica durante o dia e continuado o consumo em um bar da comunidade após concluir o serviço. Testemunhas afirmam que, por volta das 18h30, o suspeito teria deixado o estabelecimento apresentando sinais de embriaguez, como fala arrastada e dificuldade de equilíbrio. Segundo esses relatos, uma pessoa presente no local teria tentado intervir para que ele não assumisse o volante, mas o homem teria reagido de forma ríspida.

Pouco tempo depois, por volta das 19h, a colisão com a motocicleta conduzida por Mateus aconteceu na chegada de São Mateus, na altura do bairro Litorâneo.
DEFESA:

A reportagem conversou na última quarta-feira (8) com o advogado Arilson Cardoso Caetano, que faz a defesa do suspeito Jairo Coutinho dos Santos. Ele disse que o depoimento de Jairo “está no inquérito”, que ele “está consciente [dos fatos]” e que a defesa o orientou sobre o que chamou de “rigores da lei”. Segundo o advogado, o cliente “está disposto a arcar com o que a lei assim o punir ou absolver”.
Disse ainda que Jairo é uma “pessoa de boa índole” e que ele está “à disposição da polícia e da justiça”.

SOBRE O CASO:

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