como tendências da confeitaria impactam microempreendedores?
Viralizado nas redes sociais nas últimas semanas, o morango do amor é o fenômeno do momento. O doce, que alude à clássica maçã do amor, consiste na fruta envolta por um brigadeiro branco e uma camada de calda caramelizada vermelha.
A febre é tanta que, além da venda nas confeitarias ou por microempreendedores, muitos tentam replicar a receita em casa e até reinventam a sobremesa com outras frutas.
Apesar do hype do morango do amor, a onda não é inédita. Outras sobremesas também já estiveram no auge, como doces de pistache, bolo red velvet, banoffee, copos da felicidade, paleta mexicana, cupcakes e muitos outros.
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Com a alta na demanda pela fruta caramelizada, a TV Cultura conversou com algumas confeiteiras para entender como essas tendências impactam seus negócios.
Alejandra Reis, que hoje comanda a Confeitaria da Ale, costuma dizer que foi esse ramo que a escolheu. “Na pandemia, em 2020, minha tia, que é confeiteira, me ensinou a fazer copo da felicidade e, desde então, fazia sempre que podia ou quando tinha um tempo livre. Só tive coragem de seguir mesmo há dois anos, quando perdi meu emprego e tive meu filho pequeno, Murilo, na tentativa de passar mais tempo com ele”.
O copo da felicidade, que ainda hoje é o carro chefe de Alejandra, se assemelha a um bolo de pote, mas possui recheios diferentes e mais camadas, para ficar bem cremoso. Os sabores são variados: de morango com chantilly, chocolate com maracujá, Kinder Bueno, surpresa de uva, leite Ninho com Nutella e mais.
Não foi só Alejandra que entrou no embalo dos copos da felicidade. Renata Libbya, que trabalha principalmente com encomendas de bolos na Doce Libbya, conta que os copos também a ajudaram muito na pandemia. Ela tinha acabado de começar a trabalhar como inspetora em uma escola, em 2020, devido ao lockdown, ficou preocupada por não ter como trabalhar. Na época, a sobremesa lhe proporcionou um aumento de cerca de 40% na sua renda mensal.
“Durante a pandemia, eu estava em casa por ser grupo de risco, então comprei um curso sobre copos da felicidade e comecei a vender, Foi um sucesso. Ainda não tinha muita experiência com bolos, mas meus doces eram gostosos. Eu vendia mais de 50 copos nos finais de semana. Até hoje as pessoas falam desses copos. Tinha até um amigo que chamava de ‘copo da desgraça’, porque estava viciado. Quando voltei a trabalhar presencialmente, quase não consegui dar conta de fazer tanto”, compartilha Renata.
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Já Ana Clara Seixas, que cursa Gastronomia na faculdade e mantém a Iadocica desde 2021, diz que vê a confeitaria como uma forma de transformar carinho em doce. Em um momento em que precisava comprar um celular novo, sua mãe deu a ideia de começar a vender brigadeiros gourmet para juntar esse dinheiro. “No começo, fazia apenas para amigos e familiares, depois comecei a receber encomendas e vi uma oportunidade de transformar essa paixão em um negócio”.
Um doce que conquistou espaço fixo no cardápio, tomou gosto entre os clientes e lhe rendeu um aumento de 35% no faturamento mensal foi sua banoffee, que ela adaptou ao usar castanha de caju na massa. Tradicionalmente, a torta consiste em uma torta com recheio de banana, doce de leite, chantilly e canela.
Com tantos doces ‘da moda’ que passaram pelo caminho, agora chegou a vez do morango do amor, que ocupa o posto de carro chefe nos comércios das três confeiteiras.
Alejandra tem vendido de 60 a 100 unidades diariamente, a R$15,00 cada, e diz que o doce foi responsável por pelo menos 70% da sua renda de julho. “Meu faturamento teve um aumento de pelo menos R$1.500,00 por dia durante essas últimas duas semanas. Foram dias intensos, produzindo até 100 morangos por dia”, diz.
Ana Clara também comemora o sucesso com os morangos, que proporcionaram um aumento de cerca de 45% na sua renda mensal. Ela tem vendido, em média, 30 unidades por dia, com preços variados: o morango do amor pequeno é R$10,00, médio R$15,00 e grande R$20,00.
“Postei vários stories fazendo teste do morango, atingiram praticamente todos meus seguidores. Vários começaram a pedir, e com as divulgações e feedbacks, novos clientes vieram me conhecer e fazer pedidos além do morango”, conta.
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Renata comenta que a sobremesa também tem lhe ajudado financeiramente, que muitos clientes procuraram o doce assim que ela compartilhou os testes nas redes sociais. Apesar da febre, a confeiteira aponta que a tendência também encarece a busca dos ingredientes nos mercados.
“Meu carro chefe de bolos é brigadeiro com morangos, só que eles estão muito mais caros do que o normal. Depois que essa moda passar, vai ser difícil diminuir o preço do bolo. Além disso, o corante vermelho está em falta no mercado”, diz.
Renata complementa que, desde que começou a fazer os morangos do amor, uma caixa com 20 unidades da fruta, nem sempre todas aproveitáveis, passou de aproximadamente R$10,00 para R$15,00 no mercado em que frequenta.
Ainda pensando nas outras modas de confeitaria, ela adiciona que o custo do quilo de pistache ultrapassa R$200,00. “Eu que sou microempreendedora com uma cartela pequena de clientes, sofro pra dar conta.”
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Assim como a administradora do Doce Libbya, Ana Clara também tem comenta as dificuldades com o aumento nos preços dos morangos e do corante vermelho, e diz que até estoca a tintura para evitar ficar sem. “Já precisei ajustar o valor de venda ou procurar outros fornecedores para não ficar no prejuízo”, comenta.
A oscilação das diversas tendências de confeitaria se reflete nos preços do mercado. Segundo a cotação de preços no atacado da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) do dia 25 de julho, o valor mais praticado do quilo do morango era R$55,43. Já na última quarta-feira (6), o quilo da fruta estava a R$45,00 – o que evidencia a sazonalidade da tendência, que aos poucos sai do seu auge.
Enquanto não surge o novo hype da confeitaria, Alejandra, Renata e Ana Clara seguem com seus outros “carros-chefes” nos empreendimentos, e de olho na próxima tendência que possa estourar.
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