Edgar Xakriabá mostra a força da fotografia indígena na primeira exposição individual no Solar Fábio Prado
São Paulo recebe a primeira exposição individual do fotógrafo e antropólogo indígena Edgar Kanaykô Xakriabá, intitulada “Hêmba”, palavra que em Akwẽ significa “alma e espírito”.
Com um conjunto de imagens que atravessa o tempo e as fronteiras entre humano e não humano, visível e invisível, política e poética, a mostra tem curadoria de Fabiana Bruno e Eder Chiodetto. A exposição gratuita ocupará três salas do Solar Fábio Prado, na avenida Faria Lima, de 25 de outubro a 15 de dezembro.
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O percurso expositivo está organizado em três núcleos: Território, Cosmologia e Resistência. Embora funcionem como eixos curatoriais, não pretendem isolar os temas. Ao contrário, o espaço foi concebido como um corpo interligado, um organismo vivo que reflete o pensamento indígena sobre a inseparabilidade dos mundos.
Um dos trabalhos mais simbólicos, segundo Edgar, é a fotografia do pajé Vicente Xakriabá em canto e dança: “Foi ele quem me conduziu, com sua sabedoria, a pensar os conceitos do Hêmba, da imagem, da alma. Essa fotografia registra um instante de um gesto daqueles que fazem dançar as imagens dos mundos humanos e não humanos.”
“Não existem necessariamente essas divisões para os povos indígenas. O espaço expositivo permitirá que as salas sejam percorridas internamente, criando uma alusão a esses temas nos mundos indígenas”, explica a curadora Fabiana Bruno.
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Edgar Xakriabá, que aprendeu a fotografar em sua própria aldeia, construiu um trabalho autoral que funde arte, ancestralidade e ciência em uma prática visual que desafia os limites da linguagem fotográfica ocidental.
“A fotografia é um meio de luta para fazer ver, com outro olhar, aquilo que o povo indígena é”, afirma Edgar.
Seu trabalho, fundamentado também por sua formação em Antropologia Visual, propõe uma revisão urgente da história da fotografia brasileira. A fotografia de Edgar funde o documental ao poético, o etnográfico ao experimental. “Costumo dizer que não me apego a um estilo justamente para não ficar preso a um. O estilo do meu trabalho é ‘estilo território’”, explica.
São mais de dez anos de produção, com imagens feitas em rituais, cotidianos, deslocamentos e paisagens da vida Xakriabá. Para ele, o território é o eixo central de sua obra: “A terra é mãe, e é da luta pela garantia do território que toda a cultura e cosmologia de um povo se sustenta. Sem território, os outros temas não podem coexistir.”
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A exposição também propõe um mergulho sensorial.
“O still, o movimento, a palavra, a imagem, os símbolos, a língua, os artefatos — tudo está integrado no projeto curatorial, criando uma espécie de constelação pela qual os visitantes irão orbitar”, revela Eder Chiodetto. “A circularidade será uma marca do projeto. Edgar sempre nos lembra que os ciclos vitais acontecem em elipses.”
Ao abrir espaço para um artista indígena falar de dentro de sua aldeia, com a câmera nas mãos e a memória nos olhos, Hêmba não apenas ocupa um território simbólico dentro da fotografia brasileira, mas também o resignifica.
“A exposição é uma forma de retomar e demarcar um território que historicamente foi negado, mas que sempre foi dos povos indígenas”, afirma Edgar.
A mostra é realizada com recursos do ProAC Expresso Direto e reafirma a potência da arte indígena como linguagem viva, insurgente e ancestral.
Informações de Serviço
Hêmba – Edgar Kanaykô Xakriabá
Data: de 25 de outubro a 15 de dezembro de 2025
Local: Solar Fábio Prado – Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2705, Jardim Paulistano – São Paulo
Entrada gratuita
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