Smurfs, mangás, super-heróis e a difícil tarefa de reinventar uma HQ de sucesso
Quando há uma fórmula de sucesso no entretenimento, há sempre um questionamento: é preciso mudar? Atualizar? Ou em time que está ganhando não se mexe? Não há, claro, uma fórmula “certa” ou “errada” para isso no mundo das Artes – o que inclui o dos quadrinhos.
Não acho que seria exatamente correto comparar como isso é feito em mercados tão diferentes como o japonês (com seus mangás), o americano (e seus super-heróis), as tiras de jornais e os europeus: são públicos diferentes, objetivos idem. Não dá para dizer que um é melhor ou pior do que o outro. Mas, quando o assunto é continuidade, há histórias interessantes, e pretendo abordar algumas para chegar em algo que me agradou bastante: a revitalização dos Smurfs, clássicos personagens criados pelo belga Peyo.
MANGÁS E AS SAGAS FECHADAS
Há sagas fechadas que simplesmente não são revitalizadas – e tudo bem.
Por exemplo: mangás são normalmente publicados no Japão do início ao fim, com a mesma equipe criativa, e depois “acabou-se o que era doce”. É claro que pode haver casos bem posteriores de homenagens ou novas interpretações, com outros autores, mas isso não alteraria a obra original.
Há muitos exemplos de “intocados”, mas vou pegar apenas um que fez bastante sucesso: o drama “Ashita no Joe – Em Busca do Amanhã“, de Asao Takamori e Tetsuya Chiba. As lutas, reais e figuradas, do boxador impulsivo e de origem humilde foram publicadas entre 1968 e 73. Desde então, ficamos sem mais notícias dele, apesar do dramático – e quiçá aberto – final da saga. Tivemos videogames (dez!), adaptações para rádio, cinema e TV, mas o mangá permaneceu intacto, por assim dizer.
Há algumas “quase exceções” interessantes. O lindo romance histórico “Rosa de Versalhes“, de Riyoko Ikeda, saiu entre 1972 e 73. Em 2013, a autora foi convidada para celebrar os 50 anos de seu maior sucesso em uma coluna na revista “Margaret” – e acabou virando uma série em quadrinhos de “capítulos adicionais” que durou mais cinco anos. Não digo que é uma exceção porque não mudou nada da série original: apenas trouxe histórias a mais, mas o original sem novidades por cinco décadas e, quando elas vieram, não alteraram em nada o conteúdo original da saga.

Outra “quase exceção” é o terror recente “Death Note“. A história sobrenatural de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata saiu originalmente entre 2003 e 06, fazendo também bastante sucesso (e gerando anime, romance, trilha sonora, games, filmes, musical…). De quando em quando, os autores voltam a elas com capítulos adicionais, curtos, que são sequências – mas que não tiram o fato de que a série original teve início, meio e fim, e que nada foi alterado dentro dela.
SUPER-HERÓIS E A CONTÍNUA FALHA NA PASSAGEM DO LEGADO
Esta fórmula de início, meio e fim quase nunca é aplicada às HQs norte-americanas de super-heróis, que são um eterno “continua na próxima edição”.
Personagens famosos têm seus títulos mensais (alguns, mais de um) e, por mais que a equipe criativa mude, o personagem segue lá, firme e forte. Isso tem um lado bom – uma longa e profunda mitologia a seu redor -, que pode virar ruim: a cronologia pesada e confusa pode atrapalhar novos leitores.
Em mais de uma ocasião, as editoras dominantes (DC e Marvel) ensaiaram passar adiante o manto de seus personagens, mas sempre recuaram. Bruce Wayne já abandonou temporariamente o manto de Batman; o Superman
já foi para o espaço e deixou seu filho patrulhando a Terra com seu codinome; houve mais Mulheres-Maravilhas do que você imagina (conhece a Orana?).

As mudanças nos grandes personagens quase sempre são revertidas: Steve Rogers volta sempre para o uniforme bandeiroso do Capitão América; Tony Stark, para a reluzente armadura do Homem de Ferro
etc. É difícil apontarmos uma razão específica. Normalmente são apontados dois grandes fatores: queda no faturamento (vendas e marketing) e gritaria dos fãs mais conservadores nas redes sociais.

Há exceções, claro. Os ótimos “Starman” de James Robinson e o “Deus Ex Machina”, de Brian K. Vaughan e Tony Harris, são sagas fechadas. Por enquanto.
No caso da DC e da Marvel, os personagens são das editoras e elas fazem o que quiserem com eles – o que tem significado um ciclo vicioso de mudança, arrependimento e retorno ao que era antes. Mas eu adoraria ver os personagens clássicos se aposentando de verdade com seus herdeiros seguindo adiante. Clint Barton curtindo a família e vendo a Kate Bishop brilhando como Gaviã Arqueira; Kal-El abandonando a capa e vendo seu filho Jon voando como o novo e único Superman; a princesa Diana sendo coroada rainha de Themyscira como outra heroína (Donna, Cassie, Nu’Bia, Peng, Orana ou a brasileira Yara) assumindo as responsabilidades de Mulher-Maravilha.
AS TIRAS
No geral, as tiras em quadrinhos tendem a ser atemporais. Por isso, fica até certo ponto mais fácil congelar os personagens em uma idade e aparência específicas. Quando o talentosíssimo Mort Walker criou o Recruta Zero em 1950, a Segunda Guerra Mundial havia acabado. De lá para cá, os EUA entraram em várias outras guerras, e o Zero está lá, sem participar de guerra alguma e fazendo o sargento Tainha de bobo e dormindo o dia inteiro. Porque suas histórias são atemporais.

Em casos como esse, até pode haver uma passagem de bastão (sai um autor, entra outro), mas a estrutura e a fórmula ficam a mesma. Mort Walker, com o auxílio de Fred Rhoads, escreveu e ilustrou o Recruta Zero por 32 anos, até 1982, e desde então é um estúdio comandado por três de seus filhos (Neal, Mort e Walker) que toca a tira.
“Hagar, o Horrível” também ficou em família. Quando seu criador, Dik Browne, se aposentou em 1988, seu filho Chris Browne continuou escrevendo e ilustrando as HQs do bárbaro. Duas décadas depois, ele também deixou os pinceis, e as tiras agora são criadas por um estúdio comandado por Bob Browne e Tsuiwen Browne-Boeras, filhos de Dik e irmãos de Chris.
Nem sempre, claro, fica tudo em família. “Nancy“, excelente tira americana, mas pouco conhecida no Brasil, foi tocada por seu criador, Ernie Bushmiller, entre 1938 e 1982. Nos 36 anos seguintes, foram quatro equipes criativas diferentes, e desde 2018 vive uma aclamada fase sob responsabilidade de Olivia Jaimes.
Por outro lado, há as tiras que simplesmente não têm mais histórias novas. Os também excepcionais “Snoopy“, de Charles M. Schulz, “Calvin e Haroldo”, de Bill Watterson, e “Doonesbury“, de Garry Trudeau, acabaram com as saídas de seus criadores.
AS GRANDES SÉRIES EUROPEIAS
No vastíssimo universo das BDs (quadrinhos europeus) também não há regra fixa. Algumas séries, como a mítica “Lucky Luke”, foram tocadas continuamente após a saída do criador. “Asterix” e “Corto Maltese” passaram por longos hiatos antes de novas equipes artísticas assumirem. E “Tintim” nunca teve uma saída após a morte do seu criador, o belga Hergé.

FINALMENTE, OS SMURFS
E finalmente chegamos aos meus queridos Smurfs. Desde sua criação, em 1958, suas histórias (em quadrinhos ou desenho animado) seguiam mais ou menos a mesma estrutura. São aventuras divertidas envolvendo uma vila formada por dezenas de homens e uma mulher, que tentam viver seu cotidiano a despeito da maldade do terrível Gargamel.

Isso durou por quase seis décadas. Em 2017, houve uma grande mudança no longa animado “Os Smurfs e a Vila Perdida”, de Kelly Asbury. Embora a estrutura seja a mesma, houve um acréscimo incrível: uma outra vila, inédita até então, habitada apenas por mulheres. São apresentadas novas ótimas personagens, como a líder Magnólia e a aventureira Tormenta.
Esta mudança foi levada para uma série animada para a TV, que estreou em 2021, e para os quadrinhos – são sete novos álbuns desde então com os novos conceitos e personagens.

Poucas vezes vi em uma HQ uma mudança que, ao mesmo tempo, foi enorme e ao mesmo tempo manteve a estrutura básica. Na minha opinião, completamente subjetiva, as histórias estão ainda melhores do que as que acompanhei na infância. Um pequeno exemplo de que é possível atrair novos leitores sem desagradar os, digamos, acostumados com a série original.
Pedro Cirne é formado em jornalismo, desenhos e histórias em quadrinhos. É autor do romance “Venha me ver enquanto estou viva” e da graphic novel “Púrpura”, ilustrada por 17 artistas dos 8 países que falam português.
click.tvcultura.com.br
