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Leve e esquecível, ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’ brinca com o isolamento da Geração Z

Conflitos geracionais, sobretudo aqueles envolvendo parentalidade, estão presentes há inúmeras eras nas mais diversas formas de arte. Nesse sentido, abordando as diferenças entre uma quarentona moderna e uma jovem rebelde, ‘Sexta-Feira Muito Louca’ (2003) conseguiu alcançar um status de “clássico adolescente” do começo do milênio com a divertida troca de corpos entre mãe e filha. Amplamente abordado no cinema, o conceito de mudança de identidade estava em alta no começo dos anos 2000.

Mais de 20 anos depois, na esteira de uma avalanche de sequências e revivals de franquias hollywoodianas, chega aos cinemas ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’, mais nova aposta da Disney que traz de volta a dupla Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan, desta vez num contexto diferente, mas nem tanto.

Se no longa original, dirigido por Mark Waters, o conflito é motivado pelo choque de visões de mundo entre uma “baby boomer” (pessoa nascida entre a segunda metade dos anos 1940 e a metade da década de 1960) e uma “millennial” (pessoa nascida entre a metade da década de 1980 e o meio dos anos 1990), representadas respectivamente nas figuras de Tess Coleman (Jamie Lee Curtis) e Anna (Lindsay Lohan), dessa vez, lidar enquanto adulto com a Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) é o grande desafio.

Na sequência, a filha (Julia Butters) e a enteada (Sophia Hammons) de Anna, agora uma assessora de imprensa bem sucedida, se odeiam, mas são obrigadas a unirem esforços quando, mais uma vez, um evento místico transfere as mentes das duas para os respectivos corpos da própria Anna e Tess, e vice-versa.

Muitas vezes apontada como um fator complicador em diversos ambientes de relacionamento social, como o mercado de trabalho, por exemplo, a Geração Z tem como particularidade a híper exposição às novas tecnologias. Por outro lado, esses jovens também são acusados de “complicar” algumas relações pessoais. ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’, que tem agora a direção de Nisha Ganatra, procura explorar a incompreensão das outras gerações para com esses “nativos digitais”.

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A rebeldia e o “medo de crescer”, expresso na letra de ‘Take Me Away’ – principal hit da banda de garagem de Anna – nos versos (“Não quero crescer, quero sair daqui! Ei, me leve pra longe”), dão lugar ao receio de não adaptação em diferentes contextos e dificuldade de comunicação atribuídos aos adolescentes de hoje. O filme abraça a tese de que, frente à passagem do tempo, as diferentes gerações se encontraram em um lugar quase comum, enquanto a “gen Z” é a mais isolada do momento.

Além do dobro da quantidade de personagens mudando de corpos, a sequência não traz grandes novidades e a fórmula é rigorosamente a mesma. As protagonistas não veem outra saída a não ser viver na pele os desafios umas das outras até construírem um olhar mais empático entre si. No meio disso tudo, uma jovem sem pai, uma adulta com problemas no trabalho e a expectativa de um casamento.

Assim como na primeira versão, os momentos mais divertidos da produção são reservados à interpretação de Jamie Lee Curtis, que mais uma vez demonstra o quanto imaturidade é ridícula. Uma pena que, com mais personagens imersos na confusão mística – agora são quatro ao invés de duas – o revival tenha menos dela do que a obra de 2003.

O longa ainda marca a volta de Lindsay Lohan a um blockbuster da Disney após uma série de polêmicas de âmbito pessoal na década passada. Voltando aos poucos ao circuito de Hollywood, a atriz, que surgiu como um meteoro em ‘Operação Cupido‘ (1998) e se tornou talvez a principal estrela de filmes adolescentes dos EUA nos anos 2000, comove mais na pele de garota inquieta do que na de mãe firme e compreensiva.

Se ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’ reacende o sentimento nostálgico de quem tem em alta conta a franquia, peca pela falta de ousadia. Pode muito bem agradar os fãs, mas dificilmente se tornará um referencial para a Geração Z como o original foi para boa parte dos millennials.

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