Morre Robert Wilson, ícone do teatro experimental, aos 83 anos
O diretor de teatro, encenador e artista plástico norte-americano Robert Wilson morreu na última quinta-feira (31), aos 83 anos, em Water Mill, Nova York, após uma doença breve, porém aguda.
A informação foi confirmada por meio de suas redes sociais e do site oficial do The Watermill Center, centro fundado por ele em 1992 e que funcionava como um laboratório de criação artística.
Popularmente conhecido como Bob Wilson, foi uma das figuras mais inovadoras e influentes das artes cênicas nas últimas seis décadas. Com formações em arquitetura e artes visuais, incorporou a linguagem plástica ao teatro, sendo responsável não apenas pela direção de seus espetáculos, mas também pela cenografia, iluminação, composição visual e, muitas vezes, pelos movimentos coreografados das cenas. Suas montagens eram marcadas por silêncios prolongados, precisão coreográfica e estética minimalista.
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Nascido no Texas em 1941, se mudou para Nova York na década de 1960, onde deu início a uma trajetória marcada por experimentações formais e colaborações ousadas. Ele ficou mundialmente conhecido por espetáculos como ‘Einstein on the Beach’ (1976), em parceria com o compositor Philip Glass, considerada uma das obras mais disruptivas da ópera moderna, com mais de quatro horas de duração, trilha sonora feita por sintetizadores e narrativa fragmentada.
Seu teatro desafiava as convenções tradicionais. Antes de estabelecer os diálogos, Wilson definia os movimentos em cena, tratando os corpos no palco como figuras visuais, quase esculturas em movimento. Inspirava-se tanto em Shakespeare quanto em Samuel Beckett, Bertolt Brecht, Umberto Eco e Heiner Müller. A música também teve papel central em seu trabalho, com parcerias com Lou Reed, David Byrne, Tom Waits e Marina Abramovic, com quem criou o espetáculo ‘A Vida e a Morte de Marina Abramovic’, estrelado por Willem Dafoe e Antony Hegarty.
No Brasil, construiu forte relação com o público e instituições como o Sesc. Apresentou peças como ‘A Velha Senhora’, ‘A Ópera dos Três Vinténs’ e ‘A Última Gravação de Krapp’. Em 1974, levou ao Theatro Municipal de São Paulo a montagem ‘The Life and Times of Joseph Stalin’, que teve o título alterado para ‘The Life and Times of Dave Clark’ para evitar a censura. Em 2016, dirigiu ‘Garrincha: Uma Ópera das Ruas’, musical inspirado na biografia de Ruy Castro sobre o jogador. Sem familiaridade com o futebol, transformou Garrincha em um bailarino de pernas tortas e explorou poeticamente os contrastes da figura mítica e trágica do atleta.
Outros trabalhos de destaque incluem ‘A Dama do Mar’ (2013), com elenco brasileiro; ‘Conferência sobre o Nada’ (2012), baseado na obra de John Cage; e ‘Pessoa, Since I’ve Been Me’ (2023), inspirado na vida e obra de Fernando Pessoa, que encerra com um verso em inglês escrito pelo poeta português pouco antes de morrer: “I know not what tomorrow will bring”.
Seu último trabalho em vida foi a mostra ‘Animals’, inaugurada em 24 de julho deste ano na galeria Winston Wächter Fine Art, em Nova York. A exposição reunia retratos em vídeo de animais, como uma pantera negra e um alce, em composições que exploravam a luz e o silêncio como formas de introspecção sensorial.
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