‘Desextinção’? Entenda caso da empresa que diz ter dado vida à espécie de lobo que viveu na era do gelo
No começo do mês de abril, a Colossal Biosciences, empresa estadunidense de biotecnologia e engenharia genética, afirmou ter trazido de volta o lobo-terrível, espécie de canídeo extinta há mais de 10 mil anos e que viveu na época do Pleistoceno.
A empresa foi criada em 2021 com o propósito de reverter a extinção de animais que já passaram pela Terra. Algumas espécies que estão no radar da startup são os mamutes-lanosos, dodôs e tigres-da-Tasmânia.
A Colossal diz ter mapeado os genes da espécie de lobo encontrados em dois fósseis: de 13 mil e 72 mil anos atrás. Então, após o DNA ser compatado com o do lobo-cinzento, tipo que vive na América do Norte, concluiu-se que 99,5% das características dos animais eram idênticas. Através do CRISPR, técnica de modificação genética já conhecida, a empresa fez 20 edições em 14 genes; o código genético alterado foi inserido em uma célula de duas cadelas domésticas que fizeram as gestações dos lobos.
Em outubro de 2024, nasceram os filhotes Rômulo e Remo, atualmente com seis meses e mantidos em um recinto de 8 km² de um local não divulgado pela empresa. No final de janeiro deste ano, também nasceu uma fêmea: Khaleesi.
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Ainda em abril, a empresa divulgou o sequenciamento genético dos fósseis em preprint, uma versão de artigo científico disponibilizada online antes de ser submetida a uma revista de publicação. Ou seja, não houve uma revisão por pares da pesquisa ou divulgação em periódicos científicos, o que deixa a comunidade científica cética em relação à veracidade do experimento.
A coordenadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), Mercedes Okumura, diz que falar em “desextinção” é algo muito forte. Em entrevista exclusiva ao site da TV Cultura, ela explica que mesmo dentro da biologia, o conceito de espécie é amplo e constantemente debatido, já que não é definido por um só fator e envolve outros aspectos, como seu comportamento e interação com o ambiente.
“A impressão que dá é que a espécie seria, para esses pesquisadores da empresa, só o genoma. Mas a verdade é que esses lobinhos nem o genoma tem. No máximo, eles fizeram lobos transgênicos, híbridos, porque tem uma seleção e edição de genes que estão associados à pelagem e ao tamanho. Mas uma espécie não é um genoma – e mesmo que fosse, não é o caso, porque esse não é o genoma dos lobos terríveis como a gente conhece”, diz Mercedes.
Paulo Roberto Guimarães Jr., do Departamento de Ecologia do IB-USP, também discorda que os cães da Colossal sejam espécies de lobos-terríveis autênticas. Ele adiciona que, evolutivamente, a raça é distante do lobo cinzento e que estudos de DNA sugerem que essa última seria mais próxima de um cão doméstico do que do lobo-terrível.
“É ainda mais seguro afirmar que eles não trouxeram o lobo-terrível de volta da extinção. Os três animais criados pelo projeto são lobos cinzentos que tiveram 14 genes modificados para os animais se tornarem parecidos, na aparência, com a concepção atual de como o lobo-terrível seria. Não seria a edição de 14 genes dos seus 19 mil que transformariam um lobo cinzento em um lobo terrível de verdade.”
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A empresa não divulgou se pretende soltar os três animais na natureza, mas ao longo da história não faltam exemplos de bichos que foram inseridos em habitats diferentes dos de sua natureza e viraram pragas no território novo.
Isso ocorreu, por exemplo, com o castor na Patagônia Argentina, que foi introduzido no local na década de 1940 como uma potencial inovação na indústria de peles. No entanto, o roedor começou a se reproduzir rapidamente e, sem predadores naturais, virou um problema na região.
Outro caso é a presença do caracol-gigante-africano no Brasil, que foi importado nos anos 80 com o intuito de comercializá-los como uma alternativa ao escargot, iguaria apreciada na culinária francesa. Mas, da mesma maneira, a presença do molusco no país trouxe impactos na agricultura, na saúde pública e no meio-ambiente.
Os pesquisadores da USP afirmam que nas condições atuais do planeta, não tem como saber se o lobo-terrível recriado pela Colossal sobreviveria na natureza. Paulo explica que é improvável que três indivíduos de uma espécie predadora de topo sejam capazes de gerar uma nova população.
“Ainda, dada a similaridade com lobos cinzentos, é possível que esses animais terminem por hibridizar com lobos cinzentos. Caso isso aconteça, as mudanças criadas pela Colossal podem se espalhar em populações naturais com consequências ainda incertas”.
Mercedes ainda atenta para dois fatores que são cruciais para a sobrevivência desses animais: a variabilidade genética e a socialização em matilha. O primeiro aspecto costuma estar relacionado à extinção de determinadas espécies.
“Não é uma população viável, deve ter uma diversidade genética baixa, que a gente sabe que é um problema para a manutenção de populações viáveis, inclusive para a manutenção de populações em risco de extinção. O problema dos poucos indivíduos é esse: a baixa variabilidade genética”, explica.
Em relação ao segundo ponto, ela esclarece que os lobos são seres sociais, assim como os humanos e a maioria dos primatas. Portanto, a sociabilidade desde os primeiros meses de vida ensina tarefas essenciais, como achar comida e outros recursos. “Onde que esses lobos vão viver? Quem eles vão predar? Com que outros bichos eles vão interagir? Todos os outros bichos do pleistoceno, de megafauna, estão extintos; qual é o ambiente desses bichos?”, diz.
A pesquisadora do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos adiciona que como não há conhecimento do comportamento dos lobos-terríveis de 10 mil anos atrás, sequer existe um comparativo para deduzir como viveriam Rômulo, Remo e Khaleesi – mais próximos evolutivamente do lobo-cinzento – na natureza.
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O caso da Colossal também levanta um questionamento ético que envolve “trazer de volta” animais extintos, principalmente do quanto essa possibilidade não oferece um descaso com as espécies já em risco de extinção. Mercedes finaliza reforçando a importância de preservar as espécies ainda vivas e seus ambientes.
“Agora já tem pessoas falando: ‘a gente tem essa tecnologia de desextinguir espécies, então tudo bem, a gente pode não se preocupar com as espécies em risco de extinção agora e depois a gente recria’. No fundo, em termos dos riscos de extinção, é muito mais produtivo a gente focar em conservar as espécies e seus ambientes agora”, conclui.
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